Campanha da Fraternidade de 2016: Casa comum, nossa responsabilidade

Como todos os anos, desde 1962, a Igreja Católica prepara-se para a Páscoa com a Campanha da Fraternidade (CF). No tempo da Quaresma (que antecede à Páscoa) a Igreja chama as pessoas para uma reflexão e mudança de comportamento sobre suas atitudes e um compromisso com o coletivo. Sempre é escolhido um tema que motive as comunidades. Neste ano, a CF tem como tema – A Casa Comum – o mundo em que vivemos é uma casa para todos(as). Um aspecto importante de ser destacado é que neste ano a Campanha é ecumênica, ou seja, a IC se une a outras Igrejas para trabalhar juntas o mesmo tema.

Então, desde nosso lugar de mulheres católicas e feministas, a partir de uma perspectiva amplamente ecumênica, que extrapola os espaços do cristianismo, queremos nos somar a essa iniciativa trazendo a público nossas preocupações, nossa contribuição e nossos apelos para que a justiça efetivamente se realize. O lema da campanha é “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Profeta Amós).

Falar em uma “Casa Comum”, significa falar em uma Casa que tem lugar para todos e todas, e aí pensamos nas pessoas, na natureza, nos animais, em todos os seres vivos. A tarefa é imensa, e um desafio é saber por onde começar. O texto da CF aponta claramente a necessidade de saneamento básico para toda a população e sem dúvida essa é uma tarefa urgente que deve ser efetivada através das políticas públicas. Muitos problemas de saúde da população brasileira seriam resolvidos se todas as pessoas tivessem acesso ao saneamento básico, à água potável, a boas condições de higiene. Há também a necessidade de cuidar do meio ambiente, o que implica uma mudança de hábitos que reaproveite, recicle, economize tudo o que pode ser economizado. Nos somamos a esses apelos feitos pela CF-2016 e queremos acrescentar algumas preocupações a partir de nosso lugar de mulheres inseridas nas Igrejas e na sociedade.

Olhando para as periferias o que vemos são principalmente mulheres e crianças vivendo ainda em más condições. Será que a voz dessas mulheres está sendo ouvida? A Igreja têm sido de fato uma “casa comum” para acolher as mulheres? Sabemos que são elas, e especialmente as mulheres negras e pobres, as que se empenham na reprodução da vida cotidiana, que cuidam de seus filhos, que economizam água e energia, que fazem triplas jornadas de trabalho, que lutam para melhores condições de saúde e educação, e que muitas vezes têm seus filhos mortos pela polícia.

Hoje uma epidemia de grandes proporções espalha-se sobre nós, atingindo principalmente o nordeste do país, e as regiões com menos saneamento e menos cuidados com o lixo e o meio ambiente. Mais uma vez são as mulheres pobres em sua maioria que estão sendo contaminadas pelo zika vírus, e, quando grávidas, correndo um grave risco de gestar crianças com microcefalia. São casos e mais casos noticiados diariamente pela imprensa.

Nessa casa comum, anunciada pela Igreja, muitos vivem nos porões, não frequentam as salas, nem as varandas ensolaradas. Nesta CF a hierarquia católica precisa dar seu recado com clareza, sem ambiguidades. O arcebispo de São Paulo, há poucos dias deu uma entrevista à BBC (04.02.2016), dizendo que o uso da camisinha é decisão pessoal e que as mães devem encarar a microcefalia como missão e preparar-se para acolher seus filhos, porque praticar o aborto significa cometer eugenia. Ao ser perguntado se a Igreja respeita o direito de que os casais façam prevenção à gravidez, a resposta foi que a Igreja coloca um padrão, mas que cada pessoa deve assumir a responsabilidade de suas decisões.

A ambiguidade dessas respostas, assim como a reiteração da condenação do aborto em qualquer circunstância pela CNBB, voltam a mostrar a dureza da Igreja no tratamento das mulheres. Nenhuma consideração ao seu sofrimento, nenhuma compaixão. Se querem usar contraceptivos – depois de décadas de condenação – jogam agora a responsabilidade sobre as mulheres. Já a possibilidade de interromper uma gestação, esta não é sequer considerada. Até quando a hierarquia católica – composta exclusivamente por homens celibatários – tratará as mulheres com tal desrespeito?

Neste momento a ONU – Organização das Nações Unidas – recomenda que os países descriminalizem o aborto nos casos de microcefalia, mas a hierarquia católica continua desrespeitando o direito das mulheres de tomarem decisões fundamentais, tais como assumir ou não, para toda sua vida, uma criança com microcefalia, com sequelas irreversíveis. Não seria justo que a Igreja respeitasse o direito dos casais e em última instância das mulheres de decidir em situações como estas? Já há pesquisas que apontam que muitas mulheres grávidas portadoras do zika vírus, têm sido abandonadas por seus maridos ou companheiros, tendo elas que assumir toda a responsabilidade… Não seria mais urgente apelar aos governos e companheiros que não se acovardem, partilhem dessa responsabilidade e que não deixem essas mulheres desamparadas social, econômica e emocionalmente? Que os homens fiquem ao lado de suas companheiras e lhes deem todo o suporte necessário seja qual for a decisão que tomarem? Aquelas que decidem abortar necessitam de condições dignas de saúde para fazê-lo com segurança; as mulheres que querem levar sua gravidez adiante, apesar do zika vírus, também necessitam de todo apoio do Estado.

Essa é uma, entre outras situações que dividem NOSSA CASA COMUM.

Que a mensagem da CF na defesa do nosso planeta, como uma casa em que todos vivemos, seja límpida e direta. Que caminhemos para práticas verdadeiramente ecumênicas, entre igrejas, raças-etnias, gêneros e classes sociais, de respeito aos direitos individuais e coletivos das pessoas.

Que nenhum direito, humano ou animal, seja submetido a qualquer doutrina religiosa e que o Estado Laico seja preservado para o bem de todas as pessoas. Então as palavras do profeta Amós farão sentido: o direito vai brotar como fonte e a justiça será um riacho que não seca!

Author: catolicas01

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