Poeta homenageia luta de Católicas em cordel sobre legalização do aborto

Nestes versos tabu enfrentarei/Que tanta gente pobre deixa morta./Jamais em meu silêncio aplaudirei/Uma lei que condena quem aborta.” Assim começa a poesia Não temerei morrer excomungado, do potiguar Edson Amaro de Souza, e escrita em 2016 em homenagem a luta de Católicas pelo Direito de Decidir.

Em entrevista exclusiva para a equipe de comunicação de Católicas, Edson, que é professor, ator, poeta e tradutor, diz acompanhar há alguns anos a atuação de Católicas.

Segundo ele, a organização realiza “um trabalho justo, necessário e urgente, enfrentando tabus.” “A ONG já fez vídeos para o Youtube, fotonovelas, promove debates, enfim, usa de todos os meios possíveis para exorcizar os fantasmas que impedem o desenvolvimento de nossa sociedade.”

“O próprio nome da organização já levanta uma discussão: como podem ser católicas se defendem os anticoncepcionais, a legalização do aborto e plenos direitos para as pessoas LGBT’s? O simples fato de ostentarem esse nome já mostra que o clero não pode dominar suas consciências”, afirma Edson.

Para ele, o Brasil possui pessoas que usam a religião para “sustentar fantasias sem alicerce”. “A sociedade fica cheia de medo de levantar a voz contra esse farisaísmo. Então é preciso haver organizações que façam o diálogo com a sociedade.”

“A luz não deve ficar embaixo da mesa”

Edson faz de sua literatura um meio de dizer “o que os presidentes não têm coragem de dizer” e cita o caso de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, morta em 2014 em uma clínica clandestina de aborto, deixando duas filhas. O ex-marido e uma amiga de Jandira foram indiciados por apoiarem o aborto.

“E aí os padres e os pastores dizem que a proibição do aborto é uma lei a favor da família. Pois aí está uma família destruída: duas filhas sem mãe e ameaçadas de terem um pai presidiário. Então isso é proteger a família? Beijo as mãos das militantes da ONG Católicas.”

O poeta também afirma que é necessário enfrentar tabus nas escolas, nas ruas ou em qualquer outro lugar. “Certa vez, um subversivo disse ao povo que se ele conhecesse a verdade, a verdade o libertaria. Por isso as autoridades religiosas tudo fizeram até conseguirem crucificá-lo. A luz não deve ficar embaixo da mesa, mas no alto para iluminar a casa toda, segundo esse mesmo agitador”, diz. “Então é necessário enfrentar tabus onde estivermos: na escola, na fábrica, no ponto de ônibus, na biblioteca, onde for.”

Edson publicou pela editora Fragmentos o livro de poemas “Ouro Preto e Outras Viagens” e pela editora Buriti uma tradução do romance “Valperga”, de Mary Shelley. Também traduziu as peças “O Rei Saul”, de Vittorio Alfieri, “Thomas Morus”, de Silvio Pellico, e “Discursos Sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, de Maquiavel.

Leia abaixo o cordel Não temerei morrer excomungado, de Edson Amaro de Souza:

 

NÃO TEMEREI MORRER EXCOMUNGADO

À militância do grupo “Católicas pelo Direito de Decidir”

Nestes versos tabu enfrentarei
Que tanta gente pobre deixa morta.
Jamais em meu silêncio aplaudirei
Uma lei que condena quem aborta.
Pra salvar as mulheres eu direi:
“Um Código busquemos mais humano!
Não quero obedecer ao Vaticano!”
Se livres pra pensar nos diz o Estado,
Com dogmas nossas mãos nos tem atado
Nos dez pés de martelo alagoano.

Médicas e juízas não têm medo
Quando sentem prenhez indesejada:
Pagam por segurança e por segredo;
Fácil fazem a escolha interditada.
Tal não se dá co’a pobre favelada:
Ela arrisca seu corpo a grave dano:
Proibir não impede que aconteça
E que só gente pobre assim faleça
Nos dez pés de martelo alagoano.

Na Europa é direito garantido,
Como aconselha a sábia OMS,
Mas aqui nosso Estado emouquecido
Jamais ouve quem tal drama conhece.
É tabu nos palanques omitido
Desejar reduzir tão grande dano,
Pois se teme um IBOPE leviano.
Portugal libertou-se em referendo
Debatendo na praça o medo horrendo
Nos dez pés de martelo alagoano.

O Uruguai logo ali teve Mujica
Que o problema enfrentou com tal coragem:
A mulher oriental não se complica
– O governo lhe dá justa abordagem.
No hospital, livremente ela se explica,
Conselhos recebendo quanto ao plano,
Mas, se não a convence o bom decano,
A semente da estufa é removida,
Da mulher se salvando a jovem vida
Nos dez pés de martelo alagoano.

Portugal e Uruguai neste caminho
Estatísticas viram reduzidas;
Derrotaram o tal tabu daninho
Protegendo das jovens tantas vidas.
No Brasil feito igual eu adivinho,
Basta não mais temer o Vaticano
Nem fariseus iguais Feliciano.
Não temerei morrer excomungado
Após o bom combate ter travado
Nos dez pés de martelo alagoano.

(27/06/2016)

Author: catolicas01

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