E a Páscoa das mulheres?!

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Por Católicas pelo Direito de Decidir

No momento em que a comunidade cristã celebra a vitória da vida sobre a morte, Católicas pelo Direito de Decidir propõe à reflexão de noss@s leitor@s a declaração da Rede de Homens pela Equidade de Gênero. A tragédia de Realengo abalou todo o país. Mas os companheiros da RHEG chamam a atenção para o corte de gênero, a “tragédia dentro da tragédia”.

Todos os dias TV, rádio e jornais nos falam de mulheres brutalmente assassinadas por seus parceiros, ex-companheiros, ex-namorados… Continuamos a ser vistas pelos homens como objetos de sua propriedade, que eles podem usar e jogar fora, mas dos quais não nos podemos libertar porque eles nos “possuem”.

Páscoa é tempo de celebração e de esperança. Se propomos esse texto em nosso editorial não é porque não reconheçamos esse caráter da festa cristã. O que queremos é expressar nossa indignação pela banalização da vida das mulheres e nosso compromisso de lutar sempre para que a vitória da vida seja uma realidade também, e muito especialmente, para as mulheres de nosso país.

Carta aberta da Rede de Homens pela Equidade de Gênero/RHEG*

Realengo e a tragédia dentro da tragédia

É tarefa mais do que delicada escrever a respeito do massacre ocorrido (…) dia 07 de abril de 2011, na escola Municipal Tasso de Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro. Tamanha violência atinge a todos e todas, mas certamente, não conseguimos imaginar e de fato não sentimos a mesma dor de familiares, amigos e amigas, que (…) [enterraram] 12 crianças e adolescentes assassinadas ou ansiosamente aguardam a recuperação das (…) ainda internadas. (…)

As primeiras notícias informavam que o assassino, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, havia atirado “indiscriminadamente na direção de vários adolescentes”, no entanto, aos poucos, ficamos sabendo que o cenário real não foi este. Após divulgada a lista com o nome das vítimas começou a se desvendar a tragédia dentro da tragédia. As vítimas foram executadas com tiros desferidos há uma distância muito pequena e na maioria dos casos, houve uma seleção de quem deveria morrer.

Das 12 vítimas letais, 10 eram meninas entre 12 e 14 anos. De acordo com um aluno de 13 anos, testemunha do crime, “Ele matava as meninas com tiros na cabeça. Nas meninas, ele atirava pra matar. Nos meninos, os tiros eram só para machucar, nos braços ou nas pernas.”.

A morte de uma criança ou adolescente é sentida da mesma forma, seja de uma menina ou menino. Toda a população espera a recuperação dos que seguem internados, sejam meninas ou meninos. Mas mesmo assim, não podemos deixar de lado que dentro da tragédia, uma violência de gênero foi perpetrada. O autor, um homem jovem, as vítimas, em sua maioria, do sexo feminino. Estas 10 garotas foram executadas não apenas por estudarem na escola Municipal Tasso de Silveira, mas também pelo simples fato de serem do sexo feminino.

Muito se fala agora do Massacre da escola Columbine (Colorado, Estados Unidos), quando em 1999, dois estudantes, Eric Harris, 18 anos e Dylan Klebold, 17 anos, assassinaram 13 pessoas (oito alunos, quatro alunas e um professor) e feriram 21 (13 alunos e oito alunas).

No entanto, o que aconteceu ontem na escola Municipal Tasso de Silveira lembra ainda mais outro massacre, acontecido em Montreal, em 1989. A diferença entre os acontecimentos é que a nossa tragédia foi perpetrada contra crianças e adolescentes, enquanto que no Canadá, contra adultos jovens.

“Massacre de Montreal”, Canadá, 6 de dezembro de 1989. Marc Lepine (25 anos) entrou numa sala de aula da Escola Politécnica de Montreal, 48 alunas e alunos estavam na sala. Ele sacou um rifle semi-automático do casaco e ordenou que as mulheres ficassem de um lado da sala e os homens no outro, depois, deu tiros para cima e ordenou que os homens se retirassem. Após a saída dos homens, ele começou a executar as mulheres. Saiu da sala e continuou pelos corredores da escola, caçando mulheres. Gritava “Eu só quero as mulheres! Eu odeio as feministas!”. Matou 14 mulheres, feriu outras 13. Apenas um homem foi ferido. Se matou quando a munição estava perto de acabar

Falemos das questões psicopatológicas do assassino, falemos de bullying, falemos da segurança das escolas, falemos de religião, falemos da tragédia cotidiana brasileira causada pelo fácil acesso a armas de fogo e munição… mas falemos também da violência de gênero que de fato aconteceu, da violência que foi principalmente direcionada às meninas e garotas desta escola.

Nos perguntemos “Que loucura é essa que prioriza meninas para matar?”. 22 anos depois do Massacre de Montreal, temos tristemente a nossa versão… Que loucura é essa que deseja eliminar meninas, garotas, mulheres? E por que até o momento este lado da tragédia tem sido tão pouco abordado?

*Rede de Homens pela Equidade de Gênero (RHEG)

A RHEG congrega um conjunto de organizações da sociedade civil que atuam na promoção dos direitos humanos, com vistas a uma sociedade mais justa com equidade de direitos entre homens e mulheres. A Campanha do Laço Branco é a principal ação da Rede, a qual compreende um conjunto de estratégias de comunicação com vistas a sensibilizar, envolver e mobilizar os homens no engajamento pelo fim da violência contra as mulheres.

Integram a RHEG: Instituto Papai (PE), Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema/UFPE); Instituto NOOS de Pesquisas Sistêmicas e Desenvolvimentos de Redes Sociais (RJ), Instituto Promundo (RJ), Coletivo Feminista (SP), ECOS – Comunicação em Sexualidade (SP), Margens/UFSC e Themis (RS).

www.laçobranco.org.br