A emergência da interseccionalidade nos estudos feministas da religião

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Em Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) assumimos, em nossas ações, atividades e projetos, a perspectiva interseccional como forma de ampliar o nosso trabalho a favor dos direitos sexuais e direitos reprodutivos de mulheres negras, quilombolas, indígenas, migrantes, trans, enfim… Temos presente a diversidade do ser mulher. São estas mulheres citadas que se encontram à margem das informações, muito distantes do uso dos contraceptivos, da maternidade segura e da interrupção voluntária da gravidez, dentre outros direitos fundamentais para o viver melhor.

Nos últimos anos, o conceito de interseccionalidade tem sido extensamente enfatizado e utilizado no Brasil. A emergência dessa ferramenta teórica, metodológica, analítica e prática para os estudos feministas e o movimento feminista tem proporcionado outros olhares e provocado novas ações com o intuito de visibilizar as mulheres e seus respectivos grupos. Afinal, em que consiste a interseccionalidade? É uma importante categoria inclusiva que permite aprofundar o universo do ser mulher numa sociedade estruturalmente patriarcal, racista, classista e misógina. Verificam-se as suas especificidades e necessidades, haja vista a pluralidade e a diversidade do país. A utilização desse termo possibilita o reconhecimento de questões de raça, classe, gênero, religião, etnia, dentre outras, e como estas se entrelaçam e provocam disparidades. Como nos lembrou a socióloga Maria Lugones, “é um conceito que deflagra a diferença”.

A interseccionalidade foi sistematizada academicamente por meio da pesquisadora, ativista e feminista afroamericana Kimberle Crenshaw, em 1989. No entanto, se faz importante mencionar que tal categoria antecede as formulações da referida autora. Possui uma história anterior que remonta aos movimentos sociais e de lutas, ao feminismo negro, bem como as elaborações teóricas de mulheres negras advindas desse feminismo. Nas décadas de 1970 e 1980, as figuras protagônicas do feminismo negro brasileiro, tais como Lelia Gonzalez, Sueli Carneiro e Luiza Bairros, já denunciavam as opressões e dominações sofridas pelas mulheres negras na sociedade brasileira. Na construção da discussão concernente à interseccionalidade, citamos ainda outras mulheres – não menos importantes – que já evocavam essa perspectiva de análise em seus escritos: Maria Firmino dos Reis (1822-1917), a primeira romancista negra brasileira, Carolina Maria de Jesus (1917-1977), escritora e poetisa, dentre outras. Desafortunadamente, durante bastante tempo, estas foram apagadas da história oficial e dos debates teóricos. Todas elas contribuíram expressivamente para a compreensão e o uso interseccional nas relações de gênero, classe, raça, etnia.

A emergência da ferramenta interseccional nos estudos e nas práticas feministas permite aproximar e dar visibilidade às pautas que são próprias das mulheres negras, lésbicas, trans, indígenas etc. O que possibilita pensarmos melhor as estratégias de luta e ações nos espaços políticos, sociais, acadêmicos, institucionais e religiosos. É uma medida justa e necessária a ser adotada por esses ambientes como meio de equilibrar ou mesmo erradicar as desigualdades existentes, e abranger as várias especificidades.

No tocante à religião, embora esta possua uma centralidade no cenário atual brasileiro, o mesmo não ocorre nas discussões que envolvem a interseccionalidade, embora já afirmássemos acima sobre o excesso do uso do termo. Ainda é incipiente essa discussão nas religiões e nos estudos das religiões com foco feminista. Há ausência de pesquisas que enunciem essa proposição. As religiões, como detentoras de poder, produzem e reproduzem assimetrias de poder, de gênero, etnia e raça em suas diversas expressões. Dessa forma, as religiões podem ser analisadas de forma interseccional, com o intuito de corrigir tais assimetrias, contribuindo, assim, para a autonomia dos sujeitos.

Ao pensarmos o cristianismo em sua versão católica, está é uma tradição majoritariamente de práticas de mulheres, embora nas instâncias de poder se encontram os homens, e são estes que legislam sobre suas vidas e seus corpos. Ao utilizar o conceito de interseccionalidade no cerne das tradições religiosas, se ampliam as discussões e evidenciam as necessidades das mulheres serem consideradas em suas diversidades. Tal uso se faz necessário levando-se em consideração a situação da mulher na sociedade brasileira, que atualmente sofre de uma verdadeira “guerra contra as mulheres”, para fazer uso do título de um instigante livro da antropóloga e feminista decolonial, Rita Laura Segato.

Violências diversas pesam sobre o corpo e a vida das mulheres. O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de mulheres trans e travestis. É o país com maiores índices de casamentos infantis (pouco se fala dessa realidade deplorável), de violência doméstica e também de feminicídio, que cresceu no período de isolamento social provocado pela pandemia de COVID-19. Importante ressaltar que são as mulheres negras e quilombolas que mais morrem em decorrência de abortos clandestinos. Também são estas que mais perdem seus filhos devido à violência do Estado.

Por fim, acreditamos que a transformação dos valores culturais e sociais não ocorre sem a mudança das estruturas que perpassam o cerne das tradições religiosas, que ainda são sexistas, machistas, patriarcais e reticentes à efetiva participação feminina e à autonomia sobre os seus corpos.

Católicas pelo Direito de Decidir
São Paulo, 28 de setembro de 2020