Põe a semente na terra, não será em vão.

Marielle Franco tinha formação católica. Aos 16 anos integrava a Pastoral da Juventude e foi catequista em uma das comunidades do Morro do Timbau, no Complexo da Maré. Sua trajetória cidadã enquanto mulher negra, periférica e LGBT a levou ao cargo de vereadora na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo a quinta mais votada da cidade. Suas bandeiras políticas incomodavam. Em sua última agenda antes do seu assassinato, Marielle se reuniu na Casa das Pretas para participar da roda de conversa “Mulheres Negras Movendo Estruturas”. Marielle Franco era isso: movia as estruturas e nunca estava sozinha. Não imaginávamos que aquele evento, em 14 de março de 2018, seria o último grito, silenciado, pelos tiros que a atravessaram.

Quem matou e mandou matar Marielle Franco não tinha consciência das sementes que vieram a brotar após a sua partida forçada. Vivemos um levante onde mulheres negras, jovens e diferentes movimentos sociais têm carregado, em suas histórias e reivindicações, o legado de Marielle Franco.

O ato de recordação da vida de Marielle Franco e Anderson não deveria vir acompanhado da romantização do martírio. Por muitos anos, espaços pastorais e/ou políticos estimularam a ideia do “martírio” quase como um ato de desdobramento heroico. Porém, não queremos heróis e heroínas martirizados. Reivindicamos que nossas lideranças permaneçam vivas e seguras para seguirem lutando por seus ideais.

O feminicídio político de Marielle Franco é a interrupção da vida em abundância. Há quatro anos sua família vive com a horrível sensação de injustiça. Nós, Católicas pelo Direito de Decidir, enquanto defensoras da vida, nos somamos aos milhares de atos neste 14 de março em memória de Marielle Franco e Anderson.

Assim como nós, Marielle Franco era defensora dos Direitos Humanos das Mulheres. Nunca rebaixou sua agenda e programa político, como a descriminalização das mulheres e a legalização do aborto, para agradar quem quer que seja. Foi autora do Projeto de Lei “Pra Fazer Valer o Aborto Legal” que prevê a divulgação dos Serviços de Aborto Legal em maternidades que prestam esse atendimento em toda a cidade do Rio de Janeiro. Marielle fez um mandato exemplar, ético e participativo. Aprovou projetos contra o assédio, pela criação de Casas de Parto, por Espaço Infantil Noturno, entre tantas outras iniciativas.

É sobre a trajetória combativa e feminista de Marielle Franco que queremos rememorar sempre. A interrupção da sua vida não é o fim de suas lutas. Seguiremos cobrando por justiça e reconhecendo que a semente colocada na terra por Marielle nunca foi em vão. E seguimos com a pergunta que todas(os) queremos saber: quem mandou matar Marielle Franco e por quê?

Católicas pelo Direito de Decidir