O papa, a reprodução e os coelhos

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

Um papa latinoamericano, carismático, próximo do povo, provocador e midiático. Um bom sinal para a Igreja católica engessada por séculos em dogmas e tradições imóveis. Um papa que tem falado sobre laicidade, de justiça social, do papel da juventude e seu papel transformador  e a diversidade sexual e respeito à diferença, entre outro temas por si só polêmicos, que poderiam aproximar as pessoas católicas de uma Igreja compreensiva, moderna, coerente e capaz de assumir as mudanças que o tempo exige.

Suas reflexões estão mais centradas nas preocupações cotidianas das pessoas, parece que o imenso peso da instituição que representa, a estrutura vertical, autoritária e patriarcal da hierarquia católica, o impede de manter a coerência com o que prega. Este tem sido, provavelmente, a razão pela qual tem que mudar suas declarações em várias ocasiões, anulando as expectativas que são geradas.

No caso do seu chamado sobre a importância de assumir uma “paternidade responsável” e de manter um limite de três filhos por família, diante da sua preocupação a respeito dos múltiplos casos em que os casais se reproduzem “como coelhos”. Esta afirmação papal nos conduz, inevitavelmente ao debate sobre os métodos anticonceptivos, e não necessariamente aos naturais, que são os únicos legitimados pela Igreja.

Também chama a atenção o uso da expressão “paternidade responsável”. Será que o papa busca apelar aos homens e seu papel na reprodução ou simplesmente utiliza o conceito de paternidade de uma maneira genérica, em que se inclui a maternidade? Ia preferir que trata-se do primeiro, já que faz tanta falta ter homens que assumam a reprodução como um compromisso, participando integralmente do que implica trazer ao mundo um ser humano. Seja qual for a intenção do papa, sem dúvida, resulta nessa preocupação, de cara a necessidade de uma Igreja com capacidade de ser modernizar, escutar os novos tempos, ver as realidades e compreender que manter suas posições anacrônicas é aumentar a brecha entre as posturas da hierarquia católica e as práticas, atitudes e opiniões da filiação sobre temas como moral sexual, o conceito de famílias, os métodos contraceptivos, a maternidade livre e desejada e o Direito de Decidir das mulheres, entre outros.

Uma prova disso são os resultados de algumas pesquisas realizadas pela organização Católicas pelo Direito de Decidir e os católicos e católicas em diferentes países da América Latina. Seja na Colômbia, Brasil, México ou Peru, mais de 80% das pessoas (94% no Brasil) apoiam a idéia de que a Igreja católica permita o uso de métodos contraceptivos modernos e crêem que deve-se promover o uso da camisinha para previnir o HIV e as doenças sexualmente transmissíveis. Assim sendo, hoje sabemos que os e as católicas, no seu cotidiano e seus hábitos, não seguem as recomendações e normas do Vaticano e , em sua grande maioria, utiliza contracepção moderna. E assim como foi imposta a idéia de assumir a paternidade-maternidade, de acordo com um marco de direitos humanos que dão a possibilidade de decidir quantos filhos e filhas ter e em que momento. Por último, esperava que o papa Francismo fosse mais consciente, coerente e firme em suas afirmações. Abriria assim, as portas para uma reflexão teológica no interior da Igreja católica sobre a reprodução responsável e desejada, pois esse é um tema crucial para abordar os temas da justiça, redistribuição, equidade e paz que precisamos tanto hoje em nosso país.

Florence Thomas

Coordenadora do grupo Mujer y Sociedad

Fonte: http://www.eltiempo.com/opinion/columnistas/el-papa-la-reproduccion-y-los-conejos/15157256