Pelos direitos das mulheres: Rede de Católicas envia carta para Papa Francisco

América Latina, 13 de março de 2015

Prezado Papa Francisco,

Em dois anos de seu ministério, queremos lhe agradecer por meio desta carta, seu empenho por transformar o discurso, as formas e a figura papal; por promover a reestruturação da cúria, mudar o perfil do próximo conclave, enfrentar a corrupção e a opacidade do banco do Vaticano e anunciar novas medidas para combater a pedofilia clerical. Reconhecemos sua vocação para o diálogo ao lançar consultas para identificar os principais desafios pastorais em relação as famílias, assim como a mediação de conflitos internacionais.

Como Católicas pelo Direito de Decidir, valorizamos que:
· O Senhor esteja contribuindo para uma maior humanização da figura papal, ao expressar que é um homem como qualquer outro, que se sente convidado a viver o que lhe pede as outras pessoas e reconhecer que não tem uma palavra definitiva nem completa sobretudo o que afeta a Igreja e o mundo.[1]

· Afirme que a Igreja deve ser “uma Igreja pobre para os pobres”[2] e uma casa com as portas abertas na qual participem todas as pessoas e não se impeçam os sacramentos por qualquer razão, porque a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas um generoso remédio e alimento para os fracos”[3].

· Promova uma mudança de cultura na tomada de decisões dentro da Igreja, optando pela consulta e o diálogo em lugar de impor decisões tomadas de forma autoritária pela cúpula da instituição.

· Convoque ao reconhecimento da diversidade e da liberdade que deveria existir no seio na Igreja, porque “A unidade não é uniformidade, não é fazer tudo juntos obrigatoriamente… nem tão pouco perder a identidade […]. É saber escutar, aceitar as diferenças, ter a liberdade de pensar de forma diversa e manifestá-la”.[4]

· Valorizamos que se afaste dos fundamentalismos que reclamam a infalibilidade papal e apresentam a Igreja como a dona da verdade, ao manifestar que nem o Senhor, nem a Igreja têm “o monopólio na interpretação da realidade social ou na proposta de soluções para os problemas contemporâneos”.[5]

Porém, compartilhamos, com respeito, algumas das contradições que temos percebido no seu pontificado:
· Sobre a importância da maior presença das mulheres nos espaços de decisão eclesiais, o Senhor tem declarado que um mundo que as marginaliza “é um mundo estéril” [6], que elas são imprescindíveis na comunidade. Congruente com estas palavras, está propiciando a incorporação das mulheres às diferentes instâncias eclesiais, o que nos regozija. Entretanto, por circunstâncias que desconhecemos, o Senhor segue fechando as portas ao sacerdócio das mulheres, e inclusive ao diaconato feminino, e em certas ocasiões tem feito declarações que reafirmam o estereótipo da mulher submissa, calada e mãe como única opção.

· No que diz respeito a homossexualidade, foi gratamente surpreendente que declarasse “E quem sou eu para julgar os gays?”. No Relatio Sinody, ainda que tenha reiterado que as uniões das pessoas do mesmo sexo não são equiparáveis ao matrimônio, assegurou que as pessoas homossexuais fossem acolhidas na Igreja com respeito e sem discriminação.[7] Sem dúvida, sua pergunta e postura no sínodo passado manifestam uma valiosa mudança de atitude. Da mesma forma, esperamos que se realizem transformações na normatividade eclesiástica e na política institucional, para que as autoridades eclesiais deixem de obstaculizar leis que reconhecem os direitos humanos da comunidade lésbica, gay, bissexual, transexual, travesti, transgenêro e interssexual, bem como os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e jovens.

· Ainda que a postura oficial da Igreja institucional sobre o aborto não tenha mudado, sem dúvida o Senhor tem dado um tratamento diferente ao tema ao expressar uma séria autocrítica: “É verdade que [como Igreja] temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que se encontram em situações duras, onde o aborto apresenta-se como uma rápida solução à suas profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas tem surgido como produto de um estupro ou num contexto de extrema pobreza. Quem pode deixar de entender estas situações de tanta dor”.[8]

De maneira paradoxal, o Senhor tem assinalado que a Igreja seguirá se opondo a esta prática, sendo assim, muitas mulheres católicas que se deparam com a necessidade de abortar continuarão sendo discriminadas e se sentirão afastadas de sua Igreja. Esperamos que considere que, para a maioria das mulheres, o aborto não tem sido uma rápida solução, mas uma decisão difícil, longamente meditada e orada. Nenhuma mulher aborta com alegria no seu coração.

Desejamos que não se afaste dos seus discursos fundados na compreensão, na misericórdia e no amor incondicional de Deus na hora de se referir ao aborto; que se lembre dos seus questionamentos aos bispos brasileiros, a quem assinalou que talvez os crentes têm se afastado porque a Igreja tem se mostrado demasiadamente fria, distante das suas necessidades, prisioneira de si mesma, incapaz de acompanhar e de dar respostas à idade adulta das pessoas….[9] Tenha em conta que, ainda que as mulheres católicas o valorizem positivamente, já não somos submissas perante a autoridade eclesiástica em nenhum aspecto de nossas vidas, menos ainda em matéria de direitos sexuais e reprodutivos, sobretudo na situação de pobreza e violência que estamos vivendo em muitos países.

· Em relação a pedofilia clerical, ainda que se tenha criado a Comissão para a Tutela dos Menores, não se está cumprindo com as recomendações expressadas ao Vaticano pelo Comitê de Especialistas da Convenção dos Direitos da Criança em 2014, dirigidas a implementar as mudanças necessárias ao interior da estrutura eclesial e no Código de Direito Canônico para eliminar os encobrimentos dos crimes de abuso sexual, da pedofilia clerical, para que se atenda as vítimas, se proteja as meninas e meninos, e se castigue aos culpados deste crime atroz. Além disso, nos preocupa que, após afirmar que “não se poderá dar prioridade a nenhum tipo de consideração, da natureza que seja como, por exemplo, o desejo de evitar o escândalo, porque não há absolutamente lugar no ministério para os que abusam de menores”, seguem sendo nomeados ministros e bispos envolvidos no encobrimento de sacerdotes pedófilos no interior da Igreja Católica para ocupar posições de alto nível dentro da estrutura eclesiástica. Nós unimos à petição das vítimas, de que se viva uma maior congruência ante esta indignante agressão a nossos irmãos.

Finalmente, reconhecemos que o Senhor está dando passos para atitudes mais evangélicas, compreensivas e misericordiosas, e que está reconhecendo nossa complexidade humana, porque a Igreja não deve olhar “a humanidade a partir de um castelo de vidro para julgar e classificar as pessoas”.[10] Lhe expressamos nossa esperança de que estas atitudes cheguem a se traduzir numa maior humanização da doutrina de nossa Igreja.

Nós somamos à maioria da comunidade católica que aprova suas reformas e tem de maneira geral uma opinião favorável da sua gestão. [11] Desejamos que Deus lhe ajude a consolidar seu pontificado desde um novo rumo cheio de esperança pelo qual estamos transitando como Igreja. Confiamos que o sopro do Espírito Santo continue o levando às beiras da justiça e da misericórdia que todas as pessoas precisam.

Com carinho,
Integrantes da Rede Latino americana de Católicas pelo Direito de Decidir (CDD): Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, El Salvador, Espanha, México, Nicarágua, Peru e Paraguai

www.catolicasporelderechoadecidir.net

cdd.coordinationregional@gmail.com

Referências:

[1]Papa Francisco, Evangelii Gaudium. Maliaño, Espanha, Sal Terrae, 2014, núm. 16.
[2] “Una Iglesia pobre para los pobres, quiere Francisco”, 3 de Outubro de 2013. Disponível em: www.news.va/es/news/una-iglesia-pobre-para-los-pobres-quiere-francisco
[3] Papa Francisco, EvangeliiGaudium…, núm. 47.
[4] “El Papa a la Fraternidad Católica de las Comunidades y Asociaciones Carismáticas de Alianza: ‘Buscad la unidad sin temer la diversidad’”, 31 de Outubro de 2014. Disponível em: www.news.va/es/news/el-papa-a-la-fraternidad-catolica-de-las-comunidad
[5] Papa Francisco, EvangeliiGaudium…, núm. 184.
[6]Véase P. Antonio Spadaro, S. J., Papa Francisco. Entrevista exclusiva completa. “Busquemos ser una Iglesia que encuentra caminos nuevos”. Bilbao, Razón y fe y Mensajero, 2013, p. 21.
[7]Véase “La RelatioSynody, em espanhol”, núm. 55. Tradução da RelatioSinody da III Assembleia Geral Extra-ordinária do Sínodo dos Bispos pela Revista Ecclesia. Disponível em: www.periodistadigital.com/religion/familia/2014/11/07/la-relatio-synodi-en-espanol-religion-iglesia-ecclesia-traduccion-castellano-sinodo-familia.shtml
[8] Papa Francisco,EvangeliiGaudium…, núm. 214.
[9] “Encuentro con el episcopado brasileño”, 27 de julho de 2014. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130727_gmg-episcopato-brasile.html
[10] “La Iglesia es de Cristo; los obispos y el Papa tienen que custodiarla como servidores: discurso del Santo Padre al final del Sínodo”, 18 de outubro de 2014. Disponível em: www.news.va/es/news/la-iglesia-es-de-cristo-y-los-obispos-con-el-suces
[11]“Pope Francis’ Image Positive in Much of World”, 11 de dezembro de 2014. Disponível em: www.pewglobal.org/2014/12/11/pope-francis-image-positive-in-much-of-world/

Author: rack

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