A família tem sido historicamente concebida como uma instituição fundamental para a organização social, associada a valores de cuidado, proteção e transmissão cultural. No entanto, essa idealização, frequentemente expressa em termos de sacralidade, também tem operado como um dispositivo simbólico que invisibiliza e legitima múltiplas formas de violência contra meninas e mulheres. A noção de família como espaço privado, natural e inquestionável tem servido para excluí-la da vigilância social e estatal, favorecendo a impunidade de práticas violentas exercidas principalmente no âmbito doméstico.
Como adverte Rita Segato (2016), a família patriarcal funciona como uma das primeiras pedagogias da dominação, onde se aprendem hierarquias de gênero e obediência. Nesse sentido, a violência aparece como um mecanismo de reprodução da ordem social. Esses discursos são fortalecidos pelo neoconservadorismo religioso, que reatualiza a autoridade patriarcal sob a retórica do cuidado e da proteção da infância.
O caráter “sagrado” atribuído à família sustenta-se em uma dicotomia fundacional do pensamento moderno: a separação entre o público e o privado. Como aponta Carole Pateman (1995), essa divisão foi central para excluir as relações familiares do campo da justiça e da cidadania, relegando mulheres e meninas a um espaço onde os direitos ficam suspensos. Sob essa lógica, a violência intrafamiliar não é concebida como um problema estrutural, mas como um conflito doméstico, o que reforça a ideia de que deve ser resolvido “dentro do lar” e não por meio da intervenção institucional.
Essa privatização da violência se intensifica em contextos nos quais o discurso religioso mantém forte influência social e política. A família passa a ser apresentada como uma instituição anterior e superior ao Estado, o que contribui para deslegitimar qualquer forma de intervenção pública voltada à proteção de meninas e mulheres frente à violência.
No contexto brasileiro, com o processo de colonização, a Igreja Católica trouxe como pedagogia o castigo e controle dos corpos. Amar, segundo essa lógica, era punir. Essa pedagogia da violência fazia parte de um projeto civilizatório e o modelo de família cristã se tornava um dos espaços primordiais de disciplinamento, com um sistema de autoridade que habilita qualquer tipo de abuso do poder masculino. Nesse sentido, como lugar privilegiado de regulação dos corpos e da sexualidade, tornou-se o âmbito onde começaram a se reproduzir normas de gênero e impor um mandato cisheteronormativo que define quais formas de existência e identidade são legítimas.
Neste modelo, mulheres e meninas são socializadas em um mandato de sacrifício que as responsabiliza pela coesão familiar. Denunciar a violência implica, em muitos casos, romper com o ideal da “boa filha”, da “boa esposa” ou da “boa mãe”, o que acarreta sanções sociais e afetivas. Esse mandato se aprofunda em contextos onde discursos religiosos conservadores associam a feminilidade à obediência, à pureza sexual e à capacidade de perdão e apresentam a família como espaço idílico intocável de harmonia e felicidade.
Esta sacralização não opera apenas no plano cultural, mas também no institucional. Sistemas judiciais, educacionais e religiosos têm historicamente reproduzido a ideia de que a unidade familiar deve ser preservada mesmo acima da integridade física e psíquica de meninas e mulheres. Recentemente, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) decidiu absolver um homem de 35 anos acusado de estupro contra uma menina de apenas 12 anos, sob a justificativa de existência de “vínculo afetivo consensual” e que “constituíam família”. O Código Penal estabelece explicitamente que isso configura estupro de vulnerável. A decisão judicial demonstra como a sacralização da família pode funcionar como um dispositivo de impunidade, quando mobilizada para relativizar a violência sexual e suspender a proteção jurídica que deveria garantir a integridade de meninas e adolescentes.
Em diversos contextos de violência familiar, a denúncia é apresentada como um ato egoísta ou imoral e razão da destruição familiar, enquanto o silêncio e a tolerância ao dano são exaltados como virtudes. Desse modo, a sacralização da família desloca a responsabilidade da violência para as vítimas, julgadas moralmente como “destruidoras do lar” ao buscar justiça.
Os recentes casos de feminicídio no Brasil evidenciam de forma trágica como a violência de gênero permanece profundamente enraizada nas relações familiares. Episódios extremos, como o de um homem que assassinou os próprios filhos para punir a ex-esposa, revelam a face mais cruel de uma lógica patriarcal que trata mulheres e crianças como extensão da autoridade masculina.
Diante do crescimento dos casos de feminicídio e de violência doméstica no país, torna-se urgente fortalecer políticas públicas de prevenção, ampliar redes de acolhimento às vítimas e promover processos educativos capazes de enfrentar as raízes culturais do problema. Sem isso, o discurso da família como instituição sagrada continuará funcionando, paradoxalmente, como um véu que oculta, em vez de prevenir, algumas das formas mais brutais de violência presentes na sociedade brasileira.
É evidente que essa idealização também oculta relações de poder desiguais que atravessam a vida cotidiana. Silvia Federici (2013) assinala que a família tem sido um espaço central para a exploração do trabalho reprodutivo feminino e para a disciplina dos corpos das mulheres, na medida em que a divisão sexual do trabalho legitimada pelo discurso moral religioso atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado, pelos trabalhos domésticos e pela coesão familiar.
Soma-se a isso estruturas econômicas, sociais e raciais que aprofundam essa desigualdade de gênero e intensificam a precarização do trabalho feminino. Jornadas exaustivas, como a escala 6×1 – que vem sendo debatida no Congresso – ampliam a sobrecarga das mulheres que, além do trabalho remunerado, assumem a maior parte do trabalho doméstico e de cuidado não pago. Esse arranjo reforça a naturalização da desigualdade dentro das famílias e limita as possibilidades de autonomia das mulheres.
Para este 8 de Março trazemos, portanto, a reflexão sobre a dessacralização da família como condição necessária para garantir justiça e proteção efetiva, especialmente para meninas e mulheres que enfrentam violências no espaço que socialmente se apresenta como o mais seguro.
Questionar a sacralidade da família implica desnaturalizar seu caráter idealizado e reconhecê-la como uma instituição atravessada por relações de poder. A partir de nossa perspectiva como católicas feministas, nenhuma instituição pode se situar acima da dignidade, do corpo e da vida das pessoas. Como sustenta Judith Butler (2006), a proteção da vida exige revisar criticamente os marcos normativos que determinam quais violências são toleráveis e quais merecem ser denunciadas. A religião não deve ser instrumentalizada para justificar violências; pelo contrário, ela deve nos fortalecer para denunciar as injustiças e as violências dentro e fora dos nossos lares. Como disse bell hooks (2000), amor e abuso não podem coexistir.
Dados importantes:
1) Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, entre 2021 e 2025, houve crescimento de 14,5% nos registros de feminicídio no país: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/feminicidios-crescem-47-em-2025-pequenas-cidades-tem-maiores-taxas/
2) O Brasil atingiu recorde de vítimas de feminicídio em 2025 e 2024, com 1.518 e 1.458 vítimas em cada ano. Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O percentual das mulheres que declararam ter medo de sofrer estupro também cresceu, aponta pesquisa realizada pelo Instituto Patricia Galvão e pelo Instituto Locomotiva. Os dados foram antecipados com exclusividade nesta segunda-feira (2/3) pela Agência Brasil. Em 2020, 78% das mulheres ouvidas pelos pesquisadores disseram ter “muito medo de ser vítimas de um estupro”. Esse percentual subiu para 82% em 2025: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2026-03/brasil-bateu-recorde-de-feminicidios-em-2024-e-2025
Referências:
Butler, Judith. (2006). Vida precaria: el poder del duelo y la violencia. Buenos Aires: Paidós.
Federici, Silvia. (2013). Revolución en punto cero: trabajo doméstico, reproducción y luchas feministas. Madrid: Traficantes de Sueños.
hooks, bell (2000). All About Love: New Visions. New York: William Morrow.
Pateman, Carole. (1995). El contrato sexual. Barcelona: Anthropos.
Segato, Rita Laura. (2016). La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños.